Bad Smells de Comunicação Catálogo · Spell · DCC/UFLA
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Sobre a pesquisa

Da comunicação de código à comunicação de pessoas

Este catálogo é o produto de um estudo de caso que estende o conceito de bad smells, cunhado por Kent Beck e Martin Fowler para qualidade de código, ao domínio sociotécnico da comunicação em equipes ágeis multidisciplinares remotas.

O estudo de caso

A pesquisa foi conduzida em um projeto remoto real que desenvolve uma plataforma de treinamento por trilhas. O projeto durou cinco anos e envolveu 50 participantes no total, organizados em subtimes por função e área, distribuídos em seis estágios de interação:

  1. 1

    Cliente → Requisitos

    O cliente repassa as demandas ao Project Manager e ao time de Requisitos.

  2. 2

    Requisitos → UX/UI

    Épicos e User Stories são elicitados, priorizados e transformados em protótipos de alta fidelidade.

  3. 3

    Gestão → Desenvolvimento

    O Project Manager distribui tarefas conforme o escopo (código, testes, DevOps, conteúdo).

  4. 4

    Desenvolvimento → QA/Test

    O incremento de software é validado quanto à definição de pronto (unidade, funcional, usabilidade).

  5. 5

    QA/Test → DevOps

    O time de DevOps integra o código à infraestrutura.

  6. 6

    Gestão → Cliente

    O gestor recebe o entregável da sprint e o apresenta ao cliente.

Metodologia

Foi aplicado um questionário misto (mixed methods) a nove times, seguindo o design de triangulação concorrente de Creswell & Creswell (2017): 17 perguntas abertas e fechadas, organizadas em quatro eixos avaliativos.

  • Eixo 1

    Ferramentas

  • Eixo 2

    Canais de Comunicação

  • Eixo 3

    Desafios (percepções)

  • Eixo 4

    Soluções possíveis (percepções)

Os dados qualitativos foram validados com nuvem de palavras e diagrama de Sankey (correlacionando desafios relatados e soluções propostas), enquanto os dados quantitativos mediram frequência (escala de 1 a 5) e qualidade (escala de 1 a 6) da comunicação em cada ponto de contato do projeto.

Passo a passo

Do questionário aos insights

As trilhas quantitativa e qualitativa foram conduzidas em paralelo até convergirem na integração dos achados.

Aplicar Questionário

Questionário misto com 17 perguntas abertas e fechadas, aplicado a nove times distribuídos em diferentes áreas do projeto, cobrindo ferramentas, canais, desafios e soluções percebidas.

Trilha quantitativa

  1. Limpeza de Dados

    Organização das respostas fechadas antes da análise, preparando as escalas de frequência (1–5) e qualidade (1–6) para tabulação.

  2. Análise Estatística

    Cálculo das médias de frequência e qualidade da comunicação para cada ponto de contato — times, liderança, gestão e coordenação.

  3. Estatística Descritiva

    Consolidação dos números centrais do estudo, como a adoção de 100% do WhatsApp e a distribuição percentual dos times respondentes.

  4. Teste Inferencial

    Comparação entre os pontos de contato para localizar onde a comunicação é mais frágil — evidenciando uma estrutura horizontal, com elos externos ao time (coordenação, governança, usuários) mais fracos.

Trilha qualitativa

  1. Codificação e Temas

    As respostas às duas perguntas abertas — desafios enfrentados e soluções sugeridas — são organizadas em temas recorrentes citados pelos participantes.

  2. Análise Temática

    Os temas codificados são agrupados em padrões consistentes — a base que originou os cinco bad smells do catálogo.

  3. Nuvem de Palavras

    Visualização de frequência de termos nas respostas abertas — projeto, informações, WhatsApp e Discord estão entre os mais citados.

  4. Análise de Conteúdo

    Leitura qualitativa que relaciona cada sintoma relatado à solução sugerida pelo próprio participante — a base do diagrama de Sankey logo abaixo.

Triangulação de Dados

Integração dos achados quantitativos e qualitativos, seguindo o design de triangulação concorrente de Creswell & Creswell (2017) — o cruzamento que permitiu nomear e categorizar os cinco bad smells.

Insights e Propostas

Resultado do processo: os cinco bad smells de comunicação identificados e suas estratégias de mitigação, documentados no catálogo deste site.

Perguntas de pesquisa

  • RQ1

    Quais são as principais ferramentas de comunicação usadas no projeto e como elas impactam a efetividade da comunicação?

    Achado: WhatsApp é usado por 100% dos respondentes, tornando-se o canal de fato mesmo sem ser uma ferramenta de projeto formal — um dos achados que sustenta a recomendação de migrar decisões importantes para canais rastreáveis (ex.: Discord, Confluence).

  • RQ2

    Como a frequência e a qualidade da comunicação variam entre diferentes pontos de contato do projeto?

    Achado: A comunicação entre times é a mais frequente e mais bem avaliada (4.2/5 de frequência, 4.5/6 de qualidade); Coordenação, Governança e Usuários ficam bem abaixo (médias de 2.97 e 3.33) — evidência de uma estrutura horizontal, com os elos externos ao time mais frágeis.

  • RQ3

    Quais são os principais desafios de comunicação enfrentados pelos times e quais soluções podem ser propostas?

    Achado: Os doze sintomas relatados nas respostas abertas (ver diagrama de correlações abaixo) foram agrupados nos cinco bad smells do catálogo, cada um com estratégias de mitigação específicas propostas a partir das próprias sugestões dos participantes.

  • RQ4

    Como a comunicação pode ser melhorada para aumentar a integração do time e a eficiência geral do projeto?

    Achado: As sugestões mais citadas — centralizar a comunicação, integrar melhor as equipes e estabelecer processos consistentes — recorrem em quase todos os sintomas, indicando que ganhos de integração dependem menos de uma ferramenta nova e mais de acordos de equipe e liderança presente.

O que os dados mostraram

Times participantes (% das respostas)

  • Testing/QA30.4%
  • Development21.7%
  • Digital Transformation13%
  • DevOps8.7%
  • Management8.7%
  • Requirements4.3%
  • UX/UI4.3%
  • Coordination4.3%
  • Administrative Support4.3%

Ferramentas

100%

dos profissionais usam WhatsApp para comunicação no projeto.

Pontos de comunicação mais citados

  • Comunicação entre times78.3%
  • Comunicação entre lideranças47%

Estrutura predominantemente horizontal, com ênfase na interação intra-time.

Frequência × qualidade da comunicação por canal

Frequência (escala de 1 a 5) Qualidade (escala de 1 a 6)
  • Times

    Frequência 4.2
    Qualidade 4.5
  • Liderança

    Frequência 3.8
    Qualidade 4.3
  • Gestão

    Frequência 3.2
    Qualidade 3.7
  • Coordenação / Governança / Usuários (média)

    Frequência 3.0
    Qualidade 3.3
Triangulação qualitativa

Dos sintomas relatados às melhorias sugeridas

Nas duas perguntas abertas do questionário, cada participante descreveu os desafios que enfrenta e as ações que sugere para resolvê-los. O diagrama abaixo reconstrói essas associações resposta a resposta — a mesma técnica de triangulação que permitiu identificar os cinco bad smells e fundamentar as estratégias de mitigação do catálogo.

Sintoma relatado Melhoria sugerida
Dos sintomas relatados às melhorias sugeridas Diagrama de Sankey ligando os doze sintomas de comunicação relatados pelos participantes às melhorias que eles próprios sugeriram. A espessura de cada ligação é proporcional ao número de respostas. Dificuldade para definir uma agenda em comum → Adoção de novas ferramentas: 8 respostas Dificuldade para definir uma agenda em comum → Seguir cerimônias/reuniões: 4 respostas Dificuldade para definir uma agenda em comum → Centralizar a comunicação: 4 respostas Dificuldade em estabelecer comunicação mais orgânica → Integrar melhor as equipes: 2 respostas Dificuldade em estabelecer comunicação mais orgânica → Liderança repassar informações cruciais: 2 respostas Falta de conscientização de equipe multidisciplinar → Seguir cerimônias/reuniões: 3 respostas Falta de conscientização de equipe multidisciplinar → Integrar melhor as equipes: 3 respostas Falta de conscientização de equipe multidisciplinar → Liderança repassar informações cruciais: 3 respostas Descentralização na comunicação → Centralizar a comunicação: 4 respostas Descentralização na comunicação → Integrar melhor as equipes: 4 respostas Descentralização na comunicação → Adoção de novas ferramentas: 4 respostas Descentralização na comunicação → Processos bem estabelecidos: 4 respostas Dificuldade em acompanhar o projeto → Mais acompanhamento: 4 respostas Dificuldade em acompanhar o projeto → Integrar melhor as equipes: 4 respostas Dificuldade em acompanhar o projeto → Processos bem estabelecidos: 4 respostas Dificuldade em acompanhar o projeto → Relatório diário/semanal por texto: 4 respostas Dificuldade em obter informações detalhadas → Liderança repassar informações cruciais: 10 respostas Dificuldade em obter informações detalhadas → Integrar melhor as equipes: 5 respostas Dificuldade em obter informações detalhadas → Centralizar a comunicação: 5 respostas Dificuldade em obter informações detalhadas → Registro de informações: 5 respostas Dificuldade de comunicação entre níveis hierárquicos → Mais comunicação entre gestores: 8 respostas Dificuldade de comunicação entre níveis hierárquicos → Reuniões síncronas anuais/newsletter: 4 respostas Dificuldade de comunicação entre níveis hierárquicos → Integrar melhor as equipes: 4 respostas Desorganização das informações do projeto → Centralizar a comunicação: 6 respostas Desorganização das informações do projeto → Adoção de novas ferramentas: 6 respostas Desorganização das informações do projeto → Melhor documentação: 6 respostas Desorganização das informações do projeto → Integrar melhor as equipes: 6 respostas Desorganização das informações do projeto → Processos bem estabelecidos: 6 respostas Desorganização das informações do projeto → Registro de informações: 6 respostas Dificuldade em manter processo consistente → Seguir cerimônias/reuniões: 4 respostas Dificuldade em manter processo consistente → Mais acompanhamento: 4 respostas Dificuldade em manter processo consistente → Relatório diário/semanal por texto: 4 respostas Dificuldade em manter processo consistente → Processos bem estabelecidos: 4 respostas Falta de conhecimento de padrões de outros projetos → Reuniões síncronas anuais/newsletter: 3 respostas Falta de conhecimento de padrões de outros projetos → Integrar melhor as equipes: 3 respostas Falta de conhecimento de padrões de outros projetos → Mais comunicação entre gestores: 3 respostas Desconhecimento do fluxo de informação → Centralizar a comunicação: 5 respostas Desconhecimento do fluxo de informação → Integrar melhor as equipes: 5 respostas Desconhecimento do fluxo de informação → Adoção de novas ferramentas: 5 respostas Desconhecimento do fluxo de informação → Relatório diário/semanal por texto: 5 respostas Desconhecimento do fluxo de informação → Processos bem estabelecidos: 5 respostas Falta de registro de decisões → Registro de informações: 4 respostas Falta de registro de decisões → Centralizar a comunicação: 4 respostas Falta de registro de decisões → Mais acompanhamento: 4 respostas Falta de registro de decisões → Melhor documentação: 4 respostas Dificuldade para definir uma agenda em comum: 16 respostas Dificuldade para definir uma agenda em comum Dificuldade em estabelecer comunicação mais orgânica: 4 respostas Dificuldade em estabelecer comunicação mais orgânica Falta de conscientização de equipe multidisciplinar: 9 respostas Falta de conscientização de equipe multidisciplinar Descentralização na comunicação: 16 respostas Descentralização na comunicação Dificuldade em acompanhar o projeto: 16 respostas Dificuldade em acompanhar o projeto Dificuldade em obter informações detalhadas: 25 respostas Dificuldade em obter informações detalhadas Dificuldade de comunicação entre níveis hierárquicos: 16 respostas Dificuldade de comunicação entre níveis hierárquicos Desorganização das informações do projeto: 36 respostas Desorganização das informações do projeto Dificuldade em manter processo consistente: 16 respostas Dificuldade em manter processo consistente Falta de conhecimento de padrões de outros projetos: 9 respostas Falta de conhecimento de padrões de outros projetos Desconhecimento do fluxo de informação: 25 respostas Desconhecimento do fluxo de informação Falta de registro de decisões: 16 respostas Falta de registro de decisões Integrar melhor as equipes: 36 respostas Integrar melhor as equipes Centralizar a comunicação: 28 respostas Centralizar a comunicação Adoção de novas ferramentas: 23 respostas Adoção de novas ferramentas Processos bem estabelecidos: 23 respostas Processos bem estabelecidos Liderança repassar informações cruciais: 15 respostas Liderança repassar informações cruciais Registro de informações: 15 respostas Registro de informações Relatório diário/semanal por texto: 13 respostas Relatório diário/semanal por texto Mais acompanhamento: 12 respostas Mais acompanhamento Seguir cerimônias/reuniões: 11 respostas Seguir cerimônias/reuniões Mais comunicação entre gestores: 11 respostas Mais comunicação entre gestores Melhor documentação: 10 respostas Melhor documentação Reuniões síncronas anuais/newsletter: 7 respostas Reuniões síncronas anuais/newsletter

A espessura de cada ligação é proporcional ao número de respostas que associaram aquele sintoma àquela melhoria.

Créditos

Autores

Equipe do estudo e da apresentação no WASHES 2026 (XI Workshop sobre Aspectos Sociais, Humanos e Econômicos de Software).

  • Discente César Lobato

    PPCA · Universidade Federal do Pará (UFPA)

  • Orientador Prof. Dr. Carlos Portela

    PPCA · Universidade Federal do Pará (UFPA)

    csp@ufpa.br
  • Co-orientador Prof. Dr. Mauricio Souza

    PPGCC · Universidade Federal de Lavras (UFLA)

  • Gerente Profa. Dra. Paula Palomino

    Faculdade de Tecnologia (FATEC)

  • Vice-coordenador Prof. Dr. Rodrigo Lisbôa

    Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA)

  • Coordenador Prof. Dr. Thiago Cordeiro

    PPGI · Universidade Federal de Alagoas (UFAL)

Contribuições

  • Validação empírica de uma taxonomia de bad smells de comunicação, estendendo o conceito de code smells às dimensões humana e social do desenvolvimento de software.
  • Estratégias de mitigação práticas e sensíveis ao contexto, adaptadas às restrições do trabalho remoto — horários rotativos de reunião para acomodar fusos e bases de conhecimento centralizadas para quebrar silos de especialidade.
  • Uma abordagem metodológica que demonstra o valor de combinar métricas quantitativas de comunicação com percepções qualitativas para dar uma visão completa da dinâmica do time.

Limitações e trabalhos futuros

  • O desenho de estudo de caso único aponta a necessidade de validação mais ampla em outros contextos organizacionais e estruturas de equipe.
  • Pesquisa longitudinal pode ajudar a determinar se as estratégias de mitigação propostas geram melhoria sustentada ao longo do tempo.
  • Tecnologias emergentes, como análise de comunicação assistida por IA, podem abrir caminho para detectar e tratar bad smells antes que afetem significativamente a performance do time.

Como citar

Bad Smells of Communication in Multidisciplinary Agile Teams of a Remote Software Project. Estudo alinhado ao GranDSI-BR 2016–2026 (Boscarioli et al., 2017), no eixo de colaboração, coordenação e compartilhamento de informação em sistemas sociotécnicos distribuídos.